Como surgiu o termo Comunicação e o que significa?
comunicar-se
romper o isolamento; praticar uma atividade em conjunto
A fórmula da comunicação envolve Emissor – Canal/Ambiente/Mensagem – Receptor
Quando lemos que comunicação é um processo de envio e recebimento de mensagens por meios verbais ou não verbais entre um emissor e um receptor, é também de communicatio que estamos falando. É compartilhar um mesmo objeto de consciência, é ter algo em comum e compartilhá-lo com outrem.
Comunicação: uma prática histórica
Mesmo reconhecendo que a comunicação também pode ser desenvolvida por e entre seres e coisas, nosso foco será a comunicação humana (considerando seus mais diversos meios e formatos). Partindo desse ponto de vista, olhar para o passado e compreender em que momento e contexto surge o termo comunicação é uma ótima pista para delinearmos o conceito que procuramos.
De acordo com Martino (2001), comunicação vem do latim communicatio – e este termo é composto por três elementos: a raiz munis, o prefixo co e o sufixo tio. Munis significa “estar encarregado de”, enquanto o prefixo co expressa “simultaneidade, reunião”, e o sufixo tio designa “atividade”. Communicatio, então, representava uma “atividade realizada conjuntamente”. E foi este o primeiro significado que o termo recebeu no vocabulário religioso medieval, em que foi inventado. Mas espera aí: porque os sacerdotes medievais precisaram criar o termo communicatio?
Martino (2001) explica que, no universo do cristianismo antigo, a vida eclesiástica era marcada pelo isolamento e pela contemplação. Nessa época, duas correntes monásticas interpretavam essas práticas de forma distinta: os anacoretas acreditavam na solidão radical e seus monges viviam completamente sozinhos; já os cenobitas defendiam uma vida em comunidade nos “cenóbios” (do grego koenóbion), um “lugar onde se vivia em comum”.
Foi nos “cenóbios” que apareceu uma prática designada como communicatio, quando os monges, então isolados, se reuniam toda noite para “tomar a refeição da noite em comum”. A peculiaridade da communicatio não está na banalidade do ato de comer, mas de fazer isso coletivamente, reunindo aqueles que se encontravam isolados.
“A originalidade dessa prática fica por conta dessa ideia de ‘romper o isolamento’, e nisto reside a diferença entre a communicatio eclesiástica e o simples jantar da comunidade primitiva. Não se trata, pois, de relações sociais que os homens naturalmente desenvolvem, mas de uma certa prática, cuja novidade é dada pelo pano de fundo do isolamento. Daí a necessidade de se forjar uma nova palavra, para exprimir a novidade dessa prática (Martino, 2001, p. 13).»
A comunicação como ação coletiva e compartilhada
A história sempre tem muito a nos ensinar – e é recuperando o sentido original da communicatio que vamos construir nosso conceito de comunicação. Dessa maneira, três características do termo são essenciais:
A communicatio não designa toda e qualquer relação, mas aquela que se destaca de um fundo de isolamento.
Na communicatio há a intenção de romper o isolamento.
A communicatio é uma realização em comum.
Assim, comunicar-se não é ter algo em comum no sentido de características ou propriedades semelhantes, nem ter um hábito coletivo, mas compartilhar um mesmo objeto de consciência em um processo bem delimitado no tempo.
Desenhar o conceito de comunicação atrelando-o ao seu sentido original e histórico dá “alma” e significado ao termo. A comunicação é uma invenção, uma prática humana, que rompe o isolamento e conecta, por um período específico, duas consciências distintas em um mesmo objeto.
Portanto, quando lemos que comunicação é um processo de envio e recebimento de mensagens por meios verbais ou não verbais entre um emissor e um receptor, é também de communicatio que estamos falando. É compartilhar um mesmo objeto de consciência, é ter algo em comum e compartilhá-lo com outrem.
Ainda que pratiquemos a comunicação desde os tempos mais remotos, o termo communicatio surgiu apenas na Idade Média, carregando com ele um contexto específico, que dá, até hoje, sentido ao ato comunicativo. Mais do que representar um processo (ou um esquema) engessado em emissor-receptor, a comunicação é uma atividade essencialmente humana, coletiva e compartilhada. Portanto, cheia de nuances, especificidades e polissemias – exatamente como a nossa própria existência.
